quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Livro: Frases do Tomé, de Arnaldo Antunes



"É comum ouvirmos frases inesperadas pronunciadas pelas crianças e nos divertirmos com elas. Em alguns momentos paramos para pensar o que há por trás, mas nem sempre damos o valor que deveríamos.
Felizmente, há pessoas que prestam bastante atenção nisso. Um exemplo maravilhoso é esse livro, produzido por Arnaldo Antunes.
Tomé
Livro: Frases do Tomé aos três anos
Autor: Arnaldo Antunes
Editora: Alegoria, 2006
Tomé 1

Você provavelmente já ouviu falar do músico Arnaldo Antunes, ex integrante da banda Titãs eTribalistas. Além de músico, Arnaldo é um importante poeta brasileiro, escreveu mais de 10 livros, explorando a poesia-prosa e a poesia concreta.
Em 2006, deixou a criação um pouco de lado e publicou um livro em que foi apenas organizador, selecionando frases, anotadas por ele, de seu filho Tomé aos três anos de idade.

Tomé 2

No livro ele apenas ilustra as frases do filho. Em cada página há uma frase de Tomé e uma ilustração de Arnaldo e, no final, o resultado é um livro simples porém incrível, que mostra uma relação de cumplicidade e carinho entre os dois. E, principalmente, o pensamento inteligente de uma criança que tem espaço para dizer o que pensa.

Tomé 3

Ler os pensamentos de Tomé causam uma sensação incrível. Afinal, a imaginação e o raciocínio infantil são coisas espetaculares. As frases delineiam uma curiosidade inocente em relação ao funcionamento do mundo, a interação e a apropriação que os pequenos fazem.

Tomé 4

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Da sabedoria do mundo



O serão tinha começado tarde devido à sobrecarregada agenda familiar. O cansaço já se fazia sentir, com o mais novo adormecido no sofá e a mais velha sem energia para mais do que as conversas que começam por um "e se....", seguido de um "e depois", numa escalada de improbabilidades exageradas e descabias com que tantas vezes os miúdos constroem universos paralelos, regidos pelo disparate e o ridículo, que desafia as leis da física e da razão adulta.

A conversa chegou a um ponto em que, para resumir, muitas pessoas faziam muitos disparates, sem sentido.

Eu, vencido, deitei um 

- "Oh filha, mas isso já era um disparate muito grande...."

Ela olhou para mim com um ar sério, de quem detém, evidentemente, toda a razão do mundo e devolve-me a frase que arrumou a conversa e os meus argumentos:

- "Sim pai, mas temos de pensar nos parvos deste mundo."

Não disse mais nada, mas fiquei a pensar que a verdade é demasiado cruel quando num serão tardio nos atiram com ela à cara, assim mesmo, a seco. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Propostas pedagógicas

O mais novo, cheio de iniciativa propôs uma musiquinha alegre para as suas aulas de música no jardim de infância.
A musiquinha, era esta, na versão original que consta no vídeo. E eu gostava de ser barata para ter visto a cara do professor.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O mistério da fada dos dentes visto à luz do materialismo




O mistério instalou-se entre a dúvida e a crença. O destino dos dentes que depois de um longo período a gingar na gengiva é o centro de uma dissonância entre a razão e a fé, em que o sentido prático, recompensado por umas moedas, uma carta ou um qualquer brinde, faz com que prevaleça a fantasia. Uma fantasia que é reforçada por um materialismo concreto.
A tensão entre estes dois mundos, em que a observação e o pragmatismo validam a fantasia sobrenatural dá lugar à dúvida e esta às mais incríveis explicações, que originaram um debate entre os dois mais pequenos lá de casa.

Se é aceite que a fada dos dentes vem, durante a noite, buscar o dente que caiu e em seu lugar deixa alguma espécie de lembrança, o mistério entorna as razões para tão bizarro comportamento. Para que quererá a fada tais dentes?


O debate não foi longo mas permitiu alcançar uma conclusão unanime entre os dois. As fadas dos dentes precisam dos ditos para os entregar às bruxas, seres que como se sabe sobejamente adoram esse tipo de itens sórdidos, pois as bruxas trabalham para as fadas e estas pagam-lhes em dentes, com que as bruxas fazem as mais horripilantes sopas, base da sua alimentação. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ou comes a sopa ou chamo o Piaget


A sopa de legumes continua a ser uma prova de resistência familiar, de parte a parte.
A gestão das relações e dos poderes paternais passa sempre pelos pratos de sopa que devem ser comidos, segundo uns , mas que para outros devem ser aproveitados para travar mais uma batalha nessa grande guerra da afirmação pessoal e reforço da personalidade. Entre o desejo de "ser crescido" e a oportunidade de ser o centro das atenções, a segunda opção acaba por ter mais força e lá vem o "Não gosto desta sopa"". A solução imediata e que evitaria meia hora de birras e jogos do puxa-e-empurra seria dar-lhe a sopa à boca. Mas essa é uma cedência a que o poder paternal não está disposto a fazer.
Passa-se assim à fase da negociação, primeiro silenciosa, ao tolerar e ignorar a colher imóvel , depois mais ruidosa, ao relembrar as consequências que advêm de não comer a sopa. Finalmente, são acordadas as condições aceitáveis por ambas as partes. De um lado, a sopa já não sabe assim tão mal, mas é muita. Do outro, estabelece-se que quem "já" é capaz de comer sozinho não precisa de ajuda.
- "É muita sopa, não consigo comer tudo"
- Tudo bem, já comeste uma parte, come o que fores capaz.
- É muita sopa, não consigo comer tudo"
- "Então mais umas três colheradas"
Lá vão três colheradas a custo, e fica metade da sopa inicial no prato.
- "Já está." responde testando.
- "Não comes mais sopa?" e fica no ar a ameaça de terminar ali o diálogo, acrescida das naturais consequências de não comer a sopa: se já estás cheio não comes o resto do jantar, o que inclui a sobremesa...
- "É muita sopa, não consigo comer tudo", repete, disposto a prolongar as negociações.
- "e se fosse menos sopa? Conseguias?"
- "Sim", diz em tom de vitória. Finalmente uma cedência, percebe.
- Então e se fosse só uma tacinha de sopa? Já eras capaz?
- "Só uma tacinha, era" a vitória é certa e brilha-lhe nos olhos.
Vou então ao armário e tiro uma taça de sobremesa
- Uma tacinha como esta? Esta leva pouca sopa...
- "Sim, essa leva pouca sopa, assim era capaz! Mas esta do prato é muita!"
Despejo a metade da dose inicial de sopa que resta no prato que está à sua frente para a tigela, que fica cheia mas sem que sobre sopa no prato.
Ele sorri, vitorioso. Agora apenas tem uma tacinha de sopa para comer.
Do outro lado da mesa a mais velha abre a boca de espanto. Como é possível? Então ele não vê que a quantidade de sopa não mudou?
Não, ele não vê. Aos quatro anos ainda não se leu Piaget nem as suas provas de conservação dos líquidos...

Finalmente as rudimentares noções de psicologia do desenvolvimento que adquiri, com o mesmo esforço exigido a quem tem demasiada sopa no prato, revelam a sua utilidade. Servem para os fazer comer a sopa e um dia terem oportunidade de ler as provas do Piaget.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O que pensam as crianças sobre a arte? RESPOSTAS DAS CRIANÇAS

Tirado daqui: http://todacriancapodeaprender.org.br/o-que-pensam-as-criancas-sobre-a-arte-respostas-das-criancas/

Surpreendentes, inteligentes e incríveis respostas das crianças às obras de artes que mostramos a elas.
Há algumas semanas publicamos aqui uma chamada para que adultos perguntassem para as crianças o que pensam sobre algumas obras de artes que sugerimos.
Recebemos contribuições valiosas que ajudam a dar mais visibilidade ao pensamento infantil e sua riqueza.
Confiram abaixo:
arte1
Imagem 1: JAIME PITARCH
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Gustavo, 7 anos: “É uma cadeira mas é só um enfeite porque não tem as madeiras para sentar, a pessoa vai cair. Me deu medo.
Isadora, 6 anos: “Faltam 3 pernas! Se eu sentar eu caio!”
Olívia, 6 anos: “Quando sentar cai num buraco!”
Lívia, 6 anos: “É um assento engraçado! Como ela consegue ficar equilibrada?”
Philip, 7 anos: “É maluco, tem 4 pernas grudadas que parece um bambu! Foi um coala que montou isso!” .
Pedro Lucas, 5 anos: “Cadeira feita de galho de árvore, pra subir é só pegar uma escada e sentar.”
.João Gabriel, 7 anos: “Cadeira de bebê estragada.” .
Juliana, 5 anos: “É uma cadeira que alguém colocou uma só perna tudo junto. Quem sentar vai cair, a perna é muito fininha, não segura nem um bebê.”
Maria Clara, 7 anos: “A haste aumenta e o neném fica mais alto.”
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arte2
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Gustavo, 7 anos: “É uma bola na espuma do mar, mas ela também estourou e a espuma estava muito apertada e se espalhou, vai misturar e desmanchar tudo… quando a gente vai à praia?”
Philip, 7 anos: “Um ovo quebrado murcho!”
Isadora, 6 anos: “Um ovo dentro de uma esponja de tomar banho!”
 Olívia, 6 anos: “Um ovo vazando, explodindo!”
 Lívia, 6 anos: “Eu sinto que parece um cérebro!”
Guilherme, 6 anos: “Um ovo com água e espuma!”
 Pedro Lucas, 5 anos: “Ovo dentro da mamãe.”
 João Gabriel, 7 anos: “Nuvem de bolinhas de sorvete sabor creme ou chocolate branco.”
 Juliana, 5 anos: “Penso que é uma escultura parecida com chantilly. Fizeram com argila por dentro e depois pintaram. Todas as coisas que são assim, são feitas primeiro com argila… menos o computador.”
Maria Clara, 7 anos: “Três bolotas de sorvetes espremidas que formaram uma só.”
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Artist Rafael Gomezbarros’s 440 fibreglass ants, each 90cm long, take over part of the Saatchi Galle
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Gustavo, 7 anos: “É uma família de formigas, ele botou na parede pra gente poder ver como elas vivem no chão.”
Olívia, 6 anos: “As formigas estão descendo!” 
Isadora, 6 anos: “É um amendoim formiga por ai!”  .
Lívia, 6 anos: “Um amendoim que tem perna!”   .
Philip, 7 anos: “Penso que as formigas vão comer as pessoas!”
Pedro Lucas, 5 anos: “Imagem legal, várias aranhas presas pra não picarem.”
João Gabriel, 7 anos: “Família de formigas gigantes dentro do vidro. As que estão separadas estão perdidas.”
Juliana, 5 anos: “É uma exposição. O artista colocou formigas aí. Acho que o artista quer que a gente sinta coceguinhas.”
Maria Clara, 7 anos: “A menininha e a mãe estão no mundo gigante, onde tudo fica aumentado: Claro que eu sei que é uma imagem!”
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Gustavo, 7 anos: “Ah, eu já entendi, ele tá tentando botar os pedaços nos lugares certos mas ainda não conseguiu, tá quase… se ele vai conseguir? Não sei, mas eu consigo!”
 .Isadora, 6 anos: “Parece um homem com bolas no rosto, com partes do rosto dele!”
Olívia, 6 anos: “Parece a lente do óculos!”
 Lívia, 6anos: “Um homem cheio de olhos!”
Pedro Lucas, 5 anos: “Metade de cada pessoa com CDs no rosto.”
João Gabriel, 7 anos: “Vendo a pessoa da imagem com um binóculo estragado.”
Juliana, 5 anos: “Parece que a pessoa olhou no espelho com letras”.
Maria Clara, 7 anos: “O artista colocou as partes em círculo só pra gente ver mais de perto.”
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Imagem 5: SU BLACKWELL
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Gustavo, 7 anos: “As borboletas estão chegando, indo pra menina e vão ficar no vestido dela… pra sempre.”
Olívia, 6 anos: “Um fantasma e as borboletas indo nele!”
Guilherme, 6 anos: “Um vestido rasgando com borboletas!”
 Isadora, 6 anos: “Uma mulher sem cabeça voando!”
Lívia, 6 anos: “Uma moça sem cabeça e perna e as borboletas levando o vestido dela!”
 Pedro Lucas, 5 anos: “Mamãe que solta peixes.”
 João Gabriel, 7 anos: “As borboletas estão indo buscar perfume para perfumar o vestido.”
 Juliana, 5 anos: “Isso é um monte de borboletas voando do vestido de noiva porque a festa acabou”.
Maria Clara, 7 anos: “São pedaços do vestido voando porque eles não gostam de ficar no vestido.”

Esperamos mais colaborações!

Agradecimentos:
Luciana Mandina – Rio de Janeiro, RJ
Marcela Juliana Chanan – São Paulo, SP
Gabriela Bender – Curitiba, PR
Teresinha Nolasco – Viçosa, MG

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O futuro pertence às crianças. Hoje, já!

Chegamos tarde a casa, são já horas de jantar, o cansaço pesa-nos e não há energia para, além das tarefas obrigatórias ir cozinhar um jantar, mesmo que improvisado.
Num gesto de renúncia às tarefas domésticas apelei ao consenso do lar:

- Filhos, já é tarde, estamos cansados e temos restos no frigorífico. Importam-se de jantar o mesmo que ontem?

A mais velha acede, sem ter mesmo ouvido o que tinha sido perguntado. Mas o mais novo, também vitima do cansaço, liga o modo de birra reivindicativa:

- Eu não quero comer o jantar de ontem!!!

A coisa não vai bem, mas confiante na minha diplomacia apelo à cooperação e peço sugestões construtivas, esperançado que a alternativa apresentada seja simples e rápida…

- E então o que queres comer?

A resposta veio pronta e assertiva:

- O jantar de amanhã!


A lógica linear do miúdo - se o jantar e hoje é igual ao de ontem, quuero o de amanhã que é diferente - aliada à firmeza da posição, anulou qualquer possibilidade de resposta da minha parte. Derrotado, aceitei, esgotado, que o futuro pertence às novas gerações, capazes que são de exigir que o futuro seja hoje, agora, fazendo-nos pensar que no nosso tempo, quando tínhamos a idade deles, já éramos uns conservadores alinhados com o sistema e que se andámos a comer sopas e legumes, contrariados, apenas à nossa falta de visão e capacidade reivindicativa o devemos. 

Jantámos os restos, mas com redobrada confiança no futuro e um pouco menos de cansaço.